Faz mais de um ano desde minha última postagem.
Hoje me deu vontade de escrever porque tive uma sessão difícil na terapia, sobre aceitação. Aceitar a si, com todos limites e defeitos, é tarefa das mais difíceis porque somos muito rigorosos em relação a nós mesmos.
Eu, particularmente, sou terrivelmente carrasca comigo, cobro-me simplesmente a perfeição. E, como não poderia deixar de ser, sou severíssima com meus erros.
Para um desavisado, pode parecer falsa modéstia a frase: "meu defeito é ser perfeccionista". Mas, acreditem-me, é um peso enorme, porque não dá para relaxar nem um instante, sempre alertas, nós, aspirantes a semi-deuses, nos cobramos mais e mais.
E, como não poderia deixar de ser, parece-nos quase impossível aceitar erros, que dirá perdoá-los.
Só que nós, exigentezinhos, também erramos!
E erro mesmo, daqueles que não dá para passar uma borracha, nem mesmo colocar a culpa no outro, no ambiente, no destino ou em Deus.
Há que se enfrentar a realidade: eu, por minha culpa, errei. E agora?????
Na pieguice de meu dilema existencial, fui fuçar o google e me deparei com uma frase que achei fantástica: “Caso você encontre quaisquer erros nesta revista, por favor, lembre-se que eles foram colocados ali de propósito. Tentamos oferecer algo para todos. Algumas pessoas estão sempre procurando erros e não desejamos desapontá-las”.
Vestida a carapuça, pelo menos ri um pouquinho...
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília Meireles
Lembro de ter sido uma adolescente otimita, apaixonada pela vida, inquieta, eu tinha a certeza de que poderia realizar qualquer coisa. Hoje sei que nem tudo depende da minha vontade. Sinto saudades de quem fui, do meu ímpeto, minha paixão pela vida. Naquela época, tinha certeza de tantas coisas...
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília Meireles
Lembro de ter sido uma adolescente otimita, apaixonada pela vida, inquieta, eu tinha a certeza de que poderia realizar qualquer coisa. Hoje sei que nem tudo depende da minha vontade. Sinto saudades de quem fui, do meu ímpeto, minha paixão pela vida. Naquela época, tinha certeza de tantas coisas...
terça-feira, 6 de abril de 2010
sábado, 20 de fevereiro de 2010
To gordinha
Ferrou...Voltei novamente aos 72 kilos!!!! Preciso voltar para a dieta... Hoje mandei ver: fejoada no almoço e risole de camarão na janta...
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Ser mulher não é fácil...
São tantas as "obrigações" da mulher contemporanea, que ando meio cansada.
Tento todos os dia ser boa dona de casa, profissional competente, esportista disposta, "dieteira de carterinha", filha dedicada, irmã presente, consumidora responsável, cidadã engajada, defensora do meio ambiente, culta amiga, nora querida, mulher atraente... Cansa!
Hoje eu queria...
comer bolo de chocolate quente com sorvete de creme;
faltar ao trabalho;
ficar de bobeira;
assistir besteiras;
ler futilidades;
passar o dia descalça, descabelada, sem salto;
tomar um demoradíssimo banho de ägua quente;
mandar minha sogra conversar com minha mão;
Sei lá, relaxar um pouco, ser imperfeita sem culpas, porque errar é até fácil. O difícil mesmo é lidar com nossas próprias cobranças.
Então, acho que eu queria mesmo era dar um tempo de mim mesma, do meu rigorismo implacável. Queria ser mais legal comigo mesma.
Dizer de mim para euzinha: DEIXA DE SER CHATA, RELAXA!
Tento todos os dia ser boa dona de casa, profissional competente, esportista disposta, "dieteira de carterinha", filha dedicada, irmã presente, consumidora responsável, cidadã engajada, defensora do meio ambiente, culta amiga, nora querida, mulher atraente... Cansa!
Hoje eu queria...
comer bolo de chocolate quente com sorvete de creme;
faltar ao trabalho;
ficar de bobeira;
assistir besteiras;
ler futilidades;
passar o dia descalça, descabelada, sem salto;
tomar um demoradíssimo banho de ägua quente;
mandar minha sogra conversar com minha mão;
Sei lá, relaxar um pouco, ser imperfeita sem culpas, porque errar é até fácil. O difícil mesmo é lidar com nossas próprias cobranças.
Então, acho que eu queria mesmo era dar um tempo de mim mesma, do meu rigorismo implacável. Queria ser mais legal comigo mesma.
Dizer de mim para euzinha: DEIXA DE SER CHATA, RELAXA!
domingo, 10 de janeiro de 2010
Às vezes, é mais fácil...
Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
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